O que faz de Machado, Machado?

Todos somos um pouco dos nossos pais, irmãos, das pessoas com quem estivemos desde
que chegamos. Somos um pouco do que aprendemos e do que comemos.
Somos, sem dúvida, o que amamos, e a época em que nascemos. E somos onde
estivemos e estamos: as paisagens que contemplamos, os céus que nos inspiram, as
paredes que nos cuidam ou aprisionam.

Por essa razão – veja a força dos lugares! -, ainda que descrente, Victor Hugo nunca pode
escapar de ser um pouco das grandes gárgulas da Catedral de Notre Dame de Paris, tal
como quase se pode ouvir a voz de Guimarães Rosa entre os caminhos do Sertão.
Ninguém tem dúvidas de que Adélia seja Adélia por causa da mineira Divinópolis, nem que
J. K. Rowling seja um pouco mágica por encontrar na estação de King’s Cross a plataforma
nove três-quartos.

O que faz de Machado, Machado é, portanto, a rua do Ouvidor, por onde passearam
também Quincas Borba e o (traído?) Bentinho. É a rua de Mata-Cavalos onde nosso
célebre protagonista primeiro fitou os olhos de Capitu, e a Igreja de São Francisco de Paula
onde um velho padre – ou terá sido o próprio Machado? – flagrou uma conversa celestial.
São parte de Machado a Praça Tiradentes, onde ainda jovem e desconhecido principiou sua
carreira, o Gabinete Real onde conduziu os primeiros encontros da Academia Brasileira de
Letras, e a charmosa Confeitaria Colombo.

O que faz de Machado, Machado, é, portanto, o Rio de Janeiro. Um Rio que sobrevive, em
alguma medida – um tanto maltratado, escondido, quase esquecido – entre as ruelas do
Centro e suas igrejas históricas, entre as pequenas placas e lampiões que compõem os
roteiros do Encontro Literário. Um Rio pelo qual eu e minha família, paulistas pais de dois
niterioenses, fomos conduzidos pela Fernanda e pelo Ádamis, junto com outros
participantes do passeio, todos embevecidos com tanto conhecimento, tanta leveza e
paixão pelo Rio, por Machado, pelo nosso Brasil.

Este relato não se presta a reforçar as más notícias, mas não é segredo que – mais por
descaso dos poderosos do que por culpa de um povo tão combalido – não é do feitio do
brasileiro amar e valorizar a própria história, e qualquer esforço nesse sentido deve ser
aplaudido, sobretudo quando feito com tanto zelo, tratando de conferir ao aprendizado a
leveza de uma manhã de domingo.

Muito obrigada, Fernanda e Ádamis, pela iniciativa e pelo convite. Ao leitor, fica o alerta de
que o passeio pode ter como efeito colateral a melancolia por não se saber, não se
preservar e enaltecer devidamente toda a memória contida em cada roteiro. É, ainda assim,
uma experiência imperdível para quem quer compreender um pouco do que que faz
Machado ser Machado, e o Rio de Janeiro, maravilhoso.

Maria Clara Vieira Rosseau, sobre o Encontro Literário (06/05/2025)

Foto de Fernanda Duarte

Fernanda Duarte

Bibliotecária e guia de turismo, apaixonada pela história e cultura do Rio Antigo.

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